Amizade

É no riso dos amigos que vivemos a infância. O riso dos segredos cúmplices, das pequenas infrações que ninguém descobriu, da curiosidade partilhada em alvoroço, do sopro sereno do vento nos cabelos.

É nos olhos dos amigos que recordamos a infância. Corridos os anos, a esperança já um pouco gasta, esmorecida a alegria, é nos olhos deles que encontramos por momentos a luz das manhãs de outrora, o entendimento que nasce sem palavras, a emoção do riso solto sem a censura das conveniências ou da idade, a magia das tardes em que se adivinhava a primavera.

É nos olhos dos amigos que, por segundos, repousamos na sensação de que nos afastáramos pouco antes, quando, na verdade, os não víamos há meses, há anos, esgaçados entre o trabalho e o desencanto, o trânsito e o cansaço, a vida adiada e a morte pressentida.

Maria Cristina Pimentel

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